sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Reptiliano

 O tesão em mim se mistura com preocupação 

E ambos me mantém alerta, assim

 estímulos me irritam 

 preciso deles para me distrair de mim

Mas canso de me distrair 

e quando tento fechar os olhos 

não há para onde fugir 

Isso me apavora 

Não um medo agudo 

Mas um medo como quem está em um pântano 

Um medo de quem tentou tudo 

Deserto, e falo e as pessoas aparecem como notificações 

E tato e hálito parecem miragens 

E os sons tornaram-se paisagens 

Nesse deserto afaste-se de mim 

Está calor de derreter os ossos 

Estão poluídos não adianta 

Cavar novos poços  

Com os pés cheios de bolhas umidos 

Os sapatos esgarçados furados 

Ignoro desconfortos súbitos 

Acostumado meio anfíbio estou 

Indiferente reptiliano sou 

Desventura se desdobra 

Me olham com olhos gatos

Respondo com sangue de cobra 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

odeio a expressão "dar" como transar

" eu dei a minha buceta"

e o cara deu o penis

ou a outra pessoa deu a outra buceta

em troca?

como se fosse um acordo comercial

como se fosse uma questão de dominação

dar, comer

como se houvesse o que come e o que é devorado, o passivo e o ativo

não é porque você tem um objeto fálico e inserível

que o objeto a moldar, acatar, englobar deixe de ser também ferramenta 

sei lá o que ah comi fulana, como se fosse um grande campeonato para quem fosse mais gordo

eu fico cansado disso.

é muito difícil pro sujeito ter respeito com os corpos alheios 

mas o capitalismo materializa tudo até a última instancia 

se descreve o objeto através da sua embalagem

se conquista

e depois há a consumação 

após isso, o cansar o enjoar

de algo que seria a promessa de um novo modelo do "novo"

o novo e o velho são faces da mesma moeda

se eu lhe dei algo, não tneho mais?

o que não tenho? o brilho viçoso da conquista

o buraco abissal onde estaria o mistério 

sou um submarino e ás vezes não aguentam a pressão

e eu não gosto disso, ah ela vai dar para ele

como se nesse momento houvesse um julgamento moral

foda-se com quem se transa

literalmente

acho que nunca escrevi um pleonasmo tão divertido

enfim

o meu corpo está nesse mundo 

para ser amado

e consumado 

mas não consumido 

como um prato de refeição

por isso escolho com quem fico

por isso declino dezenas de mãos ansiosas

todos querem dar com a chama na babilonia

mas poucos pensam em reconstruí-la

as pessoas querem sexo rápido 

mas não pensam em amizades

não pensam em manutenção

somos um exército de pais ausentes

um exército de robôs imediatistas buscando por serotonina em meio ao fim do mundo


e parece que o cara pega isso e gamifica 

transforma em troféu nesse exato momento

o ato é a linguagem do início ao fim

a história contada é mais presente e importante mesmo

diante da ineficiencia de nós sairmos do discurso

precisa-se avisar que chegou no prazer máximo....

essa tensão pra gozar sempre me deixou ultra nervoso

parece que tudo é um ultimato para tudo

e só quero respirar.


enfim

nessa ótica héterocentrada, não há o discurso invertido " eu comi ele" e isso me irrita, porque só atesta os velhos lugares ativo-passivos conferidos na identidade de genero. Em vez de dizer isso , por que não pensar com carinho e respeito pelas pessoas com quem você se relaciona, e penso, se a pessoa diz assim sobre quem está perto de si, uma parte dela não se respeita também. 


chega

 você

pode ser a minha distração

me distrair com orgasmos

mas se não quiser também

eu tento não me sufocar 

com o ar embaçado dos meus traumas

aqui em casa corre bastante ar

a ânsia de ter corrói minhas visceras

que bom que não bebo álcool

amo o silêncio e amo estar só

gosto de você porque me distraio de mim

queria ler mais livros da sylvia plath

e ela deixou tão pouco 


Como é frágil o coração humano —
espelhado poço de pensamentos.
Tão profundo e trêmulo instrumento
de vidro, que canta
ou chora.


lindo