Dor
Vou falar de dor quero falar sobre dor
Dor no início foi eu ter sido mordido pela Yasmin quando tinha 3 anos.
Foi o primeiro momento em que eu realmente senti dor.
Lembro da minha mãe vindo até mim, talvez me buscando na escola , e eu chorava pensando: eu não fiz nada , porque essa pessoa me machucou? A garotinha tinha algum distúrbio.
Depois, a minha dor foi pelo não pertencimento. Eu, com um maiô verde todo caindo, todo esfarrapado, as garotinhas da minha aula de natação com biquínis bonitinhos e um monte de roupões das meninas superpoderosas. Eu, com um roupão branco. Eu queria tanto só fazer parte, era sempre isso, eu sou diferente. Diferente porque minha mãe foi traficada pela máfia, meus pais são quebrados de grana, ( e mentalmente ) eu sempre tive que ser adulto.
Essa dor. A dor de não saber zoar de volta quando as pessoas me zoavam na escola. A dor de nem conseguir olhar para essas pessoas, a vergonha do meu nariz escorrendo sem parar, e todos os dias eram iguais, e eu fui afundando em uma tristeza sem limites, achei refúgio nos livros. A dor quando eu escrevi um livrinho para a garotinha na escola, eu tinha 6 anos, queria que ela falasse pelos cotovelos como eu. Eu sempre precisei ser muito bom comunicador, ler rápido os sentimentos das pessoas, foi a minha tática de sobrevivência, infelizmente, ás vezes ainda me deixo levar pela minha empolgação e não percebo quando as pessoas ficam de saco cheio de mim. Eu sou saudável em doses homeopáticas, overdose de mim é para poucos, não sei como meu namorado aguenta.
É muita dor. É a dor pelo meu tio nunca encarar a minha cara, nunca falar nada, dor pelos meus tios julgarem a minha depressão como se eu fosse um ser nojento, é dor por causa da minha avó dizendo que eu não deveria morar com ela, que minha mãe deveria estar cuidando de mim e não estava, é dor porque meu pai era negligente e não deixou nada para mim, sozinho nesse mundo com as ferramentas que tenho e são as minhas mãos.
Dor por eu ter sido coagido a sair do meu projeto que eu tento amava, sim eu amava a mityma amava a banda e achava que amava as integrantes , mas era tudo uma ilusão. A dor de não poder botar essa dor pra fora me consome e queima o meu estômago, e eu guardo essa dor e essa mágoa e parece que ela nunca tem fim. Dor por ter sido usado, meus sentimentos e meu impulso iniciais jogados no lixo.
Mas é dor pela Júlia, Estevão, Giovanna, Larissa , terem se afastado de forma tão abrupta como se nós nunca tivéssemos sido amigos. Como se nada não tivesse passado de um delírio coletivo. Dor de quando eu falei cada coisa ruim de cada pessoa na sala e todos me odiaram por um breve momento, eu queria me matar. Eu era tão infeliz e a dor era tudo que eu conhecia, hoje estou tentando , mas essas coisas ainda doem!!! Dor por meu ex padrasto ter se aproveitado da minha situação de vulnerabilidade para passar a mão em mim, dor pelo cara no pet shop ter se aproveitado da minha situação escrota sem ter confiança em ninguém e não poder ficar em casa e também passado a mão em mim quando eu tinha 10 anos!!! E eu falo para a minha mãe que não gosto de me vestir de forma sexualizada e ela não entende , que no Brasil você é predado vivo e engolido vivo por uma cultura que acha normal dilacerar e matar mulheres, e olha que eu nem me identifico como mulher.
É dor diante dos meus sonhos que não consigo alcançar porque estou muito ocupado tento que sobreviver quase sozinho, é dor diante da minha arte que percebo ser cada vez mais desnecessária em um mundo frio, é dor ao perceber a apatia geral, dor diante da minha incapacidade de conseguir um emprego digno e eficiente, em vez disso eu estar em um emprego que frequentemente me deixa esgotado diante das ameaças constantes, dor diante da minha incapacidade de falar das minhas dores com quase ninguém porque não são instagramáveis, dor nos joelhos que já aguentaram coisas demais, dor das músicas que talvez eu nunca grave e se percam nos cadernos, dor das pessoas que não tive a melhor experiência de poder me relacionar e ter uma vivência positiva, dor de mais de cinquenta pessoas querendo me expulsar da residência estudantil sendo que eu tinha passado no senso e os salários mínimos da minha família batiam no limite da renda per capta, dor de ninguém conseguir entender o que é ter uma mãe vítima do tráfico de pessoas e a banalização dessa violência. E a invisibilidade da história dela, a dificuldade que ela tem de conseguir empregos , a dificuldade que eu tenho de conseguir empregos , a dor é a minha dificuldade de respirar perante a minha ansiedade, é a certeza que o outro praticamente não se importa, é a dor de carregar o mundo nas costas, é a dor nas costas, é a dor nos dentes e preciso escovar os dentes logo depois de comer doces e comidas em geral, do contrário sinto meus dentes sujos e coçando e isso me deixa muito mal.
É a dor diante das injustiças que sofri e que ninguém comprou comprará o meu barulho, se eu quiser justiça eu que faça, mas as vezes estou muito cansado para isso e deixo passar, é a dor de amizades feridas , é a dor e o luto de não aceitar que o tempo daquelas amizades de infância já foi, e agora preciso tentar voltar a cultivar as amizades antigas, mas as pessoas evaporam tão rápido quanto água, mas o que doi é que todas estão aqui, presentes, disponíveis e impossíveis ao mesmo tempo.
É a dor que foi embora ao eu entender que meu primeiro bichinho se foi, a dor ao deixar o Lucas ir embora, o Ariel, a Estrela, a Priscila, eu falo esses nomes e meu estômago se remexe e eu percebo que a monogamia é uma desgraça meu coração é grande demais e têm muitas dores. É a dor de eu saber a quebra do meu ego uma vez que minha obra não tem uma importância institucional, que minha fala não é relevante ou necessária, que sou só uma pequena árvore na floresta e morrerei em silêncio e ninguém saberá. É a dor de saber que provavelmente nunca poderei descansar pois descansar é um privilégio e eu não quero fechar os olhos porque assim que os fizer saberei que ficarei sozinho, eu e os meus problemas, e não quero isso, quero o suave despejar da minha alma nessas palavras que fazem barulho conforme eu as digito no teclado do meu celular. Eu não penso, sou somente essa torrente de palavras tentando se livrar da dor, como se ela fosse um emaranhado em que meu frágil corpo está dentro, sufocado. Tenho asma e bronquite, e tenho muita raiva do meu pai, porque ele me prometeu tudo e me deixou a desejar. Dor ao pensar que eu realmente preferiria apenas não ter nascido, que minha arte é consequência mas, que em geral, preferiria não existir nesse mundo frio e imbecil que massacra e condiciona o homem a situações abusivas, em que há pedofilia estupro violência massacre guerras, quem desejaria existir num mundo assim? O caos é meu amigo e companheiro mas ás vezes eu fico de saco cheio dele mas a ordem é tão ruim quanto, e eu só queria o nada, só queria me despir de todas essas dores e, como em uma redenção , me sentisse leve a ponto de flutuar e conseguir sentir as nuvens frias passando pelo meu rosto.
Acho que tá bom por hoje.
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