Posso me entorpecer em você? Não?
Vai se foder então
Que eu cave a minha cova
Não tenho mais carne
Ou olhos ou ouvidos
Sou o zumbi que repudia a própria carne
E os olhares não procuram nada
ouvidos anseiam o silêncio
mãos tateiam o escuro
Desejando não se espetar com espinhos
E as esperas, essas ásperas inimigas
Mate meu desejo de uma vez e fala que me repudia
Tento tirar de dentro de mim as enguias que me angustiam
Os vermes que me sugam, os caídos que me sigam
A comida, cheia de veneno, me enoja
O gesto obsceno me difere
E eu, semi digerido semi morto
Não consigo desligar essa incessante máquina
A vida é senão mácula
Manchados pela devassidão
Mas o desejo, é um terreno arredio
Se pede licença para assediar
E com sede, eu cedo a beira do oasis
Tudo é imagem
Por trás há panos e atores mancos
Tenho sede do inexistente real, é uma moeda
Tenho medo do caráter verdadeiro da besta humana
Do sádico, do masoquista, do desleal
O delírio a beira do oasis
Poluiram o ar e a água, mataram a fauna
Não tem planta, nem céu, nem paisagem
Era tudo uma miragem
Eu quero um corpo mas quero o torpor
Dos sentidos apontando para algum lugar que não eu
Esse eu angustiado diante da prisão
Do fardo da existência que não cessa
Das pálpebras tremendo e então
Não me falta trabalho e metafísicamente me jogo no assoalho
Não sou mais que espantalho
Quero espantar os pássaros
Não voem perto de mim os seres humanos te aprisionam
Vão onde não podem ser vistos
Fama grana bonança nada me daria esperança
Que esse mundo não é lugar de criança
Esse mundo é lugar de monstros devoradores de almas e zumbis
E os animais no meio tentando salvar as próprias peles
Antes que virem bolsas de crocodilos ou casacos de madames
O inferno é uma festa do banco master
O céu está sujo demais para conseguirmos fazer a distinção
Entre um lindo por do sol e uma nuvem densa de poluição