sábado, 7 de fevereiro de 2026

Melancolia infantil

 andei perto de uma loja

nessa loja tinha o cheiro 

daquele plástico

aquele cheiro de embalagem

nova

e me lembrei de quando eu era criança

e entrava no segundo andar das lojas americanas,

na barata ribeiro

e sentia o frescor das infinitas possibilidades

você, ao escolher um, recusa mil

e assim somos ainda com nossos brinquedinhos e 

aparatos de adulto

mas a indústria tem botado cada vez menos cores nos aparelhos

eu lembro do meu samsung corby amarelo

mas voltando ás lojas americanas

eu sinto ainda

o cheiro invisível 

preenchendo todo o meu ser

e eu andando por aquelas prateleiras cheias de brinquedos

pensando;   Vou levar um quebra cabeças de 300 mil peças

foi lá que eu comprei meus aquapets

ou meus bibits

acabei de descobrir que fizeram um acquapet capivara.

deixei um acquapet no shopping, uma vez

me senti tão triste

meu pai me deu um outro

mas não era o mesmo, nunca é

From the inside

 Dor

Vou falar de dor quero falar sobre dor 

Dor no início foi eu ter sido mordido pela Yasmin quando tinha 3 anos.

Foi o primeiro momento em que eu realmente senti dor. 

Lembro da minha mãe vindo até mim, talvez me buscando na escola , e eu chorava pensando: eu não fiz nada , porque essa pessoa me machucou? A garotinha tinha algum distúrbio.

Depois, a minha dor foi pelo não pertencimento. Eu, com um maiô verde todo caindo, todo esfarrapado, as garotinhas da minha aula de natação com biquínis bonitinhos e um monte de roupões das meninas superpoderosas. Eu, com um roupão branco. Eu queria tanto só fazer parte, era sempre isso, eu sou diferente. Diferente porque minha mãe foi traficada pela máfia, meus pais são quebrados de grana, ( e mentalmente ) eu sempre tive que ser adulto. 

Essa dor. A dor de não saber zoar de volta quando as pessoas me zoavam na escola. A dor de nem conseguir olhar para essas pessoas, a vergonha do meu nariz escorrendo sem parar, e todos os dias eram iguais, e eu fui afundando em uma tristeza sem limites, achei refúgio nos livros. A dor quando eu escrevi um livrinho para a garotinha na escola, eu tinha 6 anos, queria que ela falasse pelos cotovelos como eu. Eu sempre precisei ser muito bom comunicador, ler rápido os sentimentos das pessoas, foi a minha tática de sobrevivência, infelizmente, ás vezes ainda me deixo levar pela minha empolgação e não percebo quando as pessoas ficam de saco cheio de mim. Eu sou saudável em doses homeopáticas, overdose de mim é para poucos, não sei como meu namorado aguenta.

É muita dor. É a dor pelo meu tio nunca encarar a minha cara, nunca falar nada, dor pelos meus tios julgarem a minha depressão como se eu fosse um ser nojento, é dor por causa da minha avó dizendo que eu não deveria morar com ela, que minha mãe deveria estar cuidando de mim e não estava, é dor porque meu pai era negligente e não deixou nada para mim, sozinho nesse mundo com as ferramentas que tenho e são as minhas mãos. 

Dor por eu ter sido coagido a sair do meu projeto que eu tento amava, sim eu amava a mityma amava a banda e achava que amava as integrantes , mas era tudo uma ilusão. A dor de não poder botar essa dor pra fora me consome e queima o meu estômago, e eu guardo essa dor e essa mágoa e parece que ela nunca tem fim. Dor por ter sido usado, meus sentimentos e meu impulso iniciais jogados no lixo.

Mas é dor pela Júlia, Estevão, Giovanna, Larissa , terem se afastado de forma tão abrupta como se nós nunca tivéssemos sido amigos. Como se nada não tivesse passado de um delírio coletivo. Dor de quando eu falei cada coisa ruim de cada pessoa na sala e todos me odiaram por um breve momento, eu queria me matar. Eu era tão infeliz e a dor era tudo que eu conhecia, hoje estou tentando , mas essas coisas ainda doem!!! Dor por meu ex padrasto ter se aproveitado da minha situação de vulnerabilidade para passar a mão em mim, dor pelo cara no pet shop ter se aproveitado da minha situação escrota sem ter confiança em ninguém e não poder ficar em casa e também passado a mão em mim quando eu tinha 10 anos!!! E eu falo para a minha mãe que não gosto de me vestir de forma sexualizada e ela não entende , que no Brasil você é predado vivo e engolido vivo por uma cultura que acha normal dilacerar e matar mulheres, e olha que eu nem me identifico como mulher. 

É dor diante dos meus sonhos que não consigo alcançar porque estou muito ocupado tento que sobreviver quase sozinho, é dor diante da minha arte que percebo ser cada vez mais desnecessária em um mundo frio, é dor ao perceber a apatia geral, dor diante da minha incapacidade de conseguir um emprego digno e eficiente, em vez disso eu estar em um emprego que frequentemente me deixa esgotado diante das ameaças constantes, dor diante da minha incapacidade de falar das minhas dores com quase ninguém porque não são instagramáveis, dor nos joelhos que já aguentaram coisas demais, dor das músicas que talvez eu nunca grave e se percam nos cadernos, dor das pessoas que não tive a melhor experiência de poder me relacionar e ter uma vivência positiva, dor de mais de cinquenta pessoas querendo me expulsar da residência estudantil sendo que eu tinha passado no senso e os salários mínimos da minha família batiam no limite da renda per capta, dor de ninguém conseguir entender o que é ter uma mãe vítima do tráfico de pessoas e a banalização dessa violência. E a invisibilidade da história dela, a dificuldade que ela tem de conseguir empregos , a dificuldade que eu tenho de conseguir empregos , a dor é a minha dificuldade de respirar perante a minha ansiedade, é a certeza que o outro praticamente não se importa, é a dor de carregar o mundo nas costas, é a dor nas costas, é a dor nos dentes e preciso escovar os dentes logo depois de comer doces e comidas em geral, do contrário sinto meus dentes sujos e coçando e isso me deixa muito mal. 

É a dor diante das injustiças que sofri e que ninguém comprou comprará o meu barulho, se eu quiser justiça eu que faça, mas as vezes estou muito cansado para isso e deixo passar, é a dor de amizades feridas , é a dor e o luto de não aceitar que o tempo daquelas amizades de infância já foi, e agora preciso tentar voltar a cultivar as amizades antigas, mas as pessoas evaporam tão rápido quanto água, mas o que doi é que todas estão aqui, presentes, disponíveis e impossíveis ao mesmo tempo.

É a dor que foi embora ao eu entender que meu primeiro bichinho se foi, a dor ao deixar o Lucas ir embora, o Ariel, a Estrela, a Priscila, eu falo esses nomes e meu estômago se remexe e eu percebo que a monogamia é uma desgraça meu coração é grande demais e têm muitas dores. É a dor de eu saber a quebra do meu ego uma vez que minha obra não tem uma importância institucional, que minha fala não é relevante ou necessária, que sou só uma pequena árvore na floresta e morrerei em silêncio e ninguém saberá. É a dor de saber que provavelmente nunca poderei descansar pois descansar é um privilégio e eu não quero fechar os olhos porque assim que os fizer saberei que ficarei sozinho, eu e os meus problemas, e não quero isso, quero o suave despejar da minha alma nessas palavras que fazem barulho conforme eu as digito no teclado do meu celular. Eu não penso, sou somente essa torrente de palavras tentando se livrar da dor, como se ela fosse um emaranhado em que meu frágil corpo está dentro, sufocado. Tenho asma e bronquite, e tenho muita raiva do meu pai, porque ele me prometeu tudo e me deixou a desejar. Dor ao pensar que eu realmente preferiria apenas não ter nascido, que minha arte é consequência mas, que em geral, preferiria não existir nesse mundo frio e imbecil que massacra e condiciona o homem a situações abusivas, em que há pedofilia estupro violência massacre guerras, quem desejaria existir num mundo assim? O caos é meu amigo e companheiro mas ás vezes eu fico de saco cheio dele mas a ordem é tão ruim quanto, e eu só queria o nada, só queria me despir de todas essas dores e, como em uma redenção , me sentisse leve a ponto de flutuar e conseguir sentir as nuvens frias passando pelo meu rosto. 

Acho que tá bom por hoje.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Eu engoli o mundo inteiro

 Eu engoli 

O mundo inteiro 

E agora

Estou com

In digestão

Inteiro



Com todo seu cimento 

Sem meus pés no chão 

Chamo não vem nada

Me sinto em erosão 

A cabeça 

Nunca desligada 

Vulcão em erupção 

Eu digo descansa

Meu cerne diz não 

Eu engoli 

O mundo inteiro 

Em suspensão,

Matei, alguns reis em 

Ascenção 

Engoli o mundo inteiro

E agora, 

Estou com indigestão 


Mascando 

Mascarando 

Me dispo de mim 

Desço ao inferno 

Terno, sem fim 

Me queimo e renasço 

Pereço, assim 

Sou sua ruína 

Me chama de heróina 

E como queria umas

Boas doses de morfina 


Eu engoli 

O mundo inteiro 

Em suspensão,

Matei, alguns reis em 

Ascenção 

Engoli o mundo inteiro

E agora, 

Estou com indigestão

O bicho da goiaba

 Eu tenho nojo do bicho da goiaba 

Quantos bichos da goiaba eu comi 

Se fundiram a mim 

Eu sou um pouco de bicho da goiaba do planeta 

É a parte que geme e se contorce em uma grande bola girando no universo 

O mundo é uma goiaba 

Eu tenho nojo de mim 

A goiaba é doce 

Mas o bicho da goiaba se contorcendo na minha boca não é doce

Será que é uma larva de mosca

Larvas de moscas são nojentas

Vou ter que congelar a goiaba

Matar a goiaba 

E comer o bicho da goiaba morto, de qualquer jeito?

Eu costumava partir a goiaba ao meio 

Para comer a parte sem bicho 

Quantos bichos da goiaba eu posso ter comido 

Quantos bichos da goiaba parti ao meio, sem querer

Quantos bichos da goiaba sobreviveram, quando joguei a parte do bicho fora

O bicho devora a goiaba mas sobra tanta goiaba 

O ser humano é muito mais egoísta que o bicho da goiaba 

Imagine se tivesse apenas um ser humano no planeta

Comendo o que encontra pela frente 

Mas não, somos 8 bilhões de bichos da goiaba 

E nós comemos os outros bichos da goiaba quando não há mais goiaba pela frente 

Eles, larvas

Eu, predador 

Eles, na esperança de nascer

Eu, ceifando sua existência a partir da raiz 

Mas agora não dá para comer 

Nem a goiaba, nem os bichos da goiaba 

Pois estou a alguns milhares de quilômetros do Brasil 

Os bichos da goiaba estão na minha memória, doce

Congelados

domingo, 18 de janeiro de 2026

 ele anda na minha direção

respirando rápido 

Estou no chão 

Só mais uma luta, não

um olhar meio perdido

meio: 

entra na minha vida e tenta reorganizar meus cacos

os cabelos suados caindo na testa 

parecendo um cachorro molhado

a desilusão no seu olhar

e lindas tatuagens

e umas pernas gigantescas que parecem que vão explodir 

lindas pernas

você olha nos meus olhos

e diz

" vou apanhar"

-vai, fala de novo.

era o que eu gostaria ter dito

meu bem, você não tem a técnica

mas tem uma paixão gritante que faz você vibrar

esse fogo que queima no seu peito

mesmo com a desesperança no olhar

é inspirador

um cara de mais de noventa quilos

quero lamber suas tatuagens 

Vamos nos divertir 

fala pra mim que vai apanhar, de novo

não deixe a cor da minha faixa te inibir


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

chuva

 que a chuva

molhe a terra

que molhe meus cabelos, 

rosto,

que eu olhe para cima e veja

como um foguete vindo em minha direção

uma gota d'água 

e ela encontra a minha cara

e a água se encontra com a terra e 

sobe um dos melhores cheiros do mundo

e a água escorre pelas minhas mãos

tudo tem cheiro de úmido

eu quero me jogar

do penhasco, 

em direção ao mar

ou a cachoeira

quero chover todos meus fluidos

e sei que nunca irei secar

pois o sangue continua a correr

essa água vermelha com cheiro de ferro

e eu paro

paro de correr, paro de andar

resspiro

olho para cima

fecho os olhos

que caiam mais gotas

que meu vestido vire água-viva

que eu flutue no oceano

nas profundezas abissais

te trago luz

não mais quero dar conselhos

procure a vontade

quero entregar nada, 

me despir de vaidade

cravar em ônix-água memórias

para toda a eternidade

página afogada no leito abissal

borra-se a tinta

não há verdade

a melhor companhia

 é a minha vaidade

eu sou um gênio

uma pessoa incrível

e vou ser tratado como eu quero ser tratado 

se não for o excepcional, pra mim, não presta

que eu fique só com meus pensamentos 

a casa arrumada o trabalho vai ok 

as pinturas ok hoje é meu dia de descanso.


sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Reptiliano

 O tesão em mim se mistura com preocupação 

E ambos me mantém alerta, assim

 estímulos me irritam 

 preciso deles para me distrair de mim

Mas canso de me distrair 

e quando tento fechar os olhos 

não há para onde fugir 

Isso me apavora 

Não um medo agudo 

Mas um medo como quem está em um pântano 

Um medo de quem tentou tudo 

Deserto, e falo e as pessoas aparecem como notificações 

E tato e hálito parecem miragens 

E os sons tornaram-se paisagens 

Nesse deserto afaste-se de mim 

Está calor de derreter os ossos 

Estão poluídos não adianta 

Cavar novos poços  

Com os pés cheios de bolhas umidos 

Os sapatos esgarçados furados 

Ignoro desconfortos súbitos 

Acostumado meio anfíbio estou 

Indiferente reptiliano sou 

Desventura se desdobra 

Me olham com olhos gatos

Respondo com sangue de cobra 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

odeio a expressão "dar" como transar

" eu dei a minha buceta"

e o cara deu o penis

ou a outra pessoa deu a outra buceta

em troca?

como se fosse um acordo comercial

como se fosse uma questão de dominação

dar, comer

como se houvesse o que come e o que é devorado, o passivo e o ativo

não é porque você tem um objeto fálico e inserível

que o objeto a moldar, acatar, englobar deixe de ser também ferramenta 

sei lá o que ah comi fulana, como se fosse um grande campeonato para quem fosse mais gordo

eu fico cansado disso.

é muito difícil pro sujeito ter respeito com os corpos alheios 

mas o capitalismo materializa tudo até a última instancia 

se descreve o objeto através da sua embalagem

se conquista

e depois há a consumação 

após isso, o cansar o enjoar

de algo que seria a promessa de um novo modelo do "novo"

o novo e o velho são faces da mesma moeda

se eu lhe dei algo, não tneho mais?

o que não tenho? o brilho viçoso da conquista

o buraco abissal onde estaria o mistério 

sou um submarino e ás vezes não aguentam a pressão

e eu não gosto disso, ah ela vai dar para ele

como se nesse momento houvesse um julgamento moral

foda-se com quem se transa

literalmente

acho que nunca escrevi um pleonasmo tão divertido

enfim

o meu corpo está nesse mundo 

para ser amado

e consumado 

mas não consumido 

como um prato de refeição

por isso escolho com quem fico

por isso declino dezenas de mãos ansiosas

todos querem dar com a chama na babilonia

mas poucos pensam em reconstruí-la

as pessoas querem sexo rápido 

mas não pensam em amizades

não pensam em manutenção

somos um exército de pais ausentes

um exército de robôs imediatistas buscando por serotonina em meio ao fim do mundo


e parece que o cara pega isso e gamifica 

transforma em troféu nesse exato momento

o ato é a linguagem do início ao fim

a história contada é mais presente e importante mesmo

diante da ineficiencia de nós sairmos do discurso

precisa-se avisar que chegou no prazer máximo....

essa tensão pra gozar sempre me deixou ultra nervoso

parece que tudo é um ultimato para tudo

e só quero respirar.


enfim

nessa ótica héterocentrada, não há o discurso invertido " eu comi ele" e isso me irrita, porque só atesta os velhos lugares ativo-passivos conferidos na identidade de genero. Em vez de dizer isso , por que não pensar com carinho e respeito pelas pessoas com quem você se relaciona, e penso, se a pessoa diz assim sobre quem está perto de si, uma parte dela não se respeita também. 


chega

 você

pode ser a minha distração

me distrair com orgasmos

mas se não quiser também

eu tento não me sufocar 

com o ar embaçado dos meus traumas

aqui em casa corre bastante ar

a ânsia de ter corrói minhas visceras

que bom que não bebo álcool

amo o silêncio e amo estar só

gosto de você porque me distraio de mim

queria ler mais livros da sylvia plath

e ela deixou tão pouco 


Como é frágil o coração humano —
espelhado poço de pensamentos.
Tão profundo e trêmulo instrumento
de vidro, que canta
ou chora.


lindo

Animais

 O colapso climático  Tá quente né?  São seus olhos, gato Somos covardes, se não controlo eu mato Se não possuo, violo E não há música, e fi...