A ostentação vem para tentar preencher o lugar que a falta faz. Seja de sentido como para onde nós vamos, seja para significado, o que somos.
Rappers e trappers e cantores Pop não se diferem de pastores: a diferença é que o pastor diz: - irmãos , com a minha fé consegui meu carro, minha casa e uma linda mulher . O rapper diz : é, tive que lutar, e isso não é o que todo mundo quer, hoje tenho carro grana e mulher, e ambas as duas personas são aplaudidas de pé, e mais importante que isso, seguidos como pilares comportamentais e essa necessidade eterna que o indivíduo tem em caminhar nos passos do outro indivíduo, até que não existe mais vontade própria.
Os gatos choram porque não têm comida e estou escrevendo mediante uma serenata de "MEAOOOOOOOW". Vou botar comida para eles.
São milênios de civilização
E parece que o sonho a ser eternamente vendido ainda é reproduzir os mesmos modelos de opressão. A ostentação vai ser poder usar um bunker quando não der mais.
Parece que o fetiche da mercadoria nunca foi tão estimulado! Compre sua identidade a partir do nosso novo tênis de dois mil reais. E tire uma foto e marque a gente e você está fazendo publicidade gratuitamente disfarçada de agregar valor a si mesmo!
E já não está dando mais, já dizia a música da Fardo. Grande banda de HC, escutem.
Sabe, a preocupação não é sobre o morango, é sobre o amor, posto em um milhão de envelopes monetizáveis, é o exagero de uma tendência que busca selecionar: eu faço parte deste movimento. E o corante do morango/ maçã do amor tem conchonilhas vermelhas trituradas. Eu expulso as conchonilhas das minhas plantas porque elas são pragas.
A hipocrisia: comi uma maçã do amor faz 2 semanas. Festa junina, fazer o quê.
A ostentação é como se fosse uma tentativa de dizer: nesse navio afundando que é o mundo superaquecendo, meu assento é premium. Toda experiência com aplicativos, eventos, turismo, cultura, tem a parte Premium. É a parte que diz: o mundano é bom, mas essa é a parte especial. O capital traz essa ideia de que você acumulando-no agrega a sua identidade.
Você passa a agregar valor. Que tipo de valor? Monetário? O valor de ter conseguido prosperar/ ter nascido em uma perspectiva prospera, em uma sociedade que ainda opera em valores semi ou completamente escravagistas, onde a pressão psicológica leva os "colaboradores" ao desespero , a doença, e os "especiais" na pirâmide corporativa lhe presenteiam com um remedinho: depressão? Antidepressivo, ansiedade? Ansiolítico, falta de sono, frontal, falta de vontade e foco em trabalhar, venvanse, sempre temos uma solução do fármaco para a máquina continuar girando.
E ainda nos é inflamado um discurso que diz: dê o melhor de si, agarre toda e qualquer oportunidade, por experiência pessoal, já agarrei várias oportunidades ruins que não levaram a lugar algum e eu me culpei por isso. Porque não é isso que prometem. A ultra meritocracia que impera para que você sempre alcance mais, que cresça na empresa, que compre carro que vai liberar mais gás carbônico, que compre cada vez mais... Qualquer coisa. A ostentação funciona porque quanto mais você compra, aparentemente mais você inspira pessoas: se eu seguir esse modus operandi vou conseguir comprar mais também.
Mas até quando vamos nos encher até a cabeça de plástico, de labubus pegando poeira na prateleira quando isso deixar de ser a tendência, até quando vamos aplaudir virginias que ganham em cima da esperança de um povo massacrado por essa mesma ultra meritocracia associada a culpa da igreja católica? Porque o corpo vende. Bote o estereótipo de uma mulher ( cis ou trans ) em um corpo escultural um cabelo platinado e fotos de biquíni e você vende a imagem e um produto associado , pode ser qualquer produto, desde um curso de auto ajuda a velas artesanais a músicas a qualquer coisa. Vide Marina sena precisando embarcar nessa persona de ícone hiper sensual numa brincadeira pseudo erótica, porque ela precisa de dinheiro, se não ela cantaria de roupa, sobre coisas corriqueiras, e não apenas sobre transar, se render, etc etc. Vende. Sexo na sociedade virou uma paranóia coletiva associada a indústria pornográfica que associa os medos e traumas do passado em uma terapia behaviorista e sinceramente, na minha vida, acredito que nunca tive uma libido tão baixa.
O medo por não se relacionar com as pessoas certas inunda o Tinder de pessoas inseguras com as próprias decisões, tudo é tão rápido e mundano, como fazer algo mundano se tornar especial? Uma mulher e um homem que se relacionam e se chamam de amigos , se encontram por um momento, transam, e logo depois vão embora e, os dois, abrem obsessivamente o aplicativo para procurar um par romântico ou sexual.
O medo pelo precário de estar só. Porque o estar só não pode ser frutífero? Eu estive só a minha vida toda ( salpicada pela presença de ficantes) e só agora tenho um relacionamento estável e saudável, na medida do possível. Demorou. E fiz tantas viagens, conheci tantas pessoas, vivi aventuras , fiz músicas, pinturas, estudei tanto, e, no meu caso, agora me permito me entorpecer, estacionar um pouco no frenesi caótico que é a necessidade de sempre precisar se aprimorar e nunca ser bom o suficiente. Para quem compra minhas pinturas, elas são suficientes , para quem me ama, sou suficiente, para mim , eu sou suficiente.
Essa é a parada da ostentação. É uma ótica colonialista que diz você precisa ter tudo, mas não diz que esse tudo foi tirado de algum lugar. Que os diamantes foram extraídos de uma mina no Senegal, que os pratos chiques têm funcionários da gastronomia excessivamente explorados em uma lógica militarizada e a cabeça arrebentada de Burnout.
Ouça-me bem amor a vida é moinho vai triturar seus sonhos? Prefiro lutar contra todas as possibilidades de ruína e esquecimento e afirmar minha história e legado cultural histórico artístico musical por mais que seja difícil, por mais que eu saiba que não tenho muito lugar em indústria alguma, ás vezes me sinto humano demasiado humano mas aí lembro que o set humano comete as barbáries mais extensas e sente prazer com o martírio, com o genocídio , com o extermínio, matam-se porcos, esses gritando, e os açougueiros vendem as linguiças sorrindo, e ninguém quer lembrar que aquilo foi um porco.
Come-se foie gras falando que é chique e é um fígado de ganso, matam jacarés para o couro de última qualidade, a ostentação é o soberano na ética de bataille: direito a além da vida, direito de matar. O extermínio das espécies é inerente a espécie humana e isso me deixa triste.
Como ovos constantemente , vez ou outra compro algo que contém algum laticínio , mas com menos constância. Uma vez a cada dois meses como peixe, e penso que não resisto a minha memória afetiva, ao sabor, a morte. Me sinto mal por comer animais mortos mas a verdade é que eu nunca parei, apenas os suínos, ovinos, bovinos, galináceos e afins. Mas é a minha tentativa de reduzir minha pegada ecológica, sei que não é o suficiente para o mundo, mas por enquanto está sendo o suficiente para mim. Por que caí neste assunto? Porque radicalismos não funcionam comigo, nunca funcionaram. Mas sei que é uma divagação.
Os deuses evangélicos profetizam o dinheiro. As mulheres viram peças-objetos-troféus que simbolizam o acúmulo de valor social/ de status/ e elas estão, algumas, defendendo seu lugar de troféu, uma vez que elas ostentam seu modo de vida, e suas bocas inchadas de tanto preenchimento labial, e seus olhos repuxados por tantas plásticas. Mas as plásticas são porque o ser humano começou a ser muito hostil com relação ao amadurecimento, não se pode ter mais idade ou transparecer cansaço, falta de viço, rugas.
Ostentar uma boa aparência virou sinônimo de ser uma boa pessoa. E assim se vende TUDO. e assim se enganam milhares de pessoas. E elas não estão erradas em serem enganadas por pastores engravatados com os cabelos engomados dentes com lentes, branquíssimos. Elas acreditam piamente porque o sistema não diz como elas vão chegar a este lugar. Mas não é seguindo cegamente e obedecendo que estas pessoas chegaram nesse lugar. O ouro veio obliterado pelo sangue vocês sabem de quem, e o mercúrio contaminou os rios, mas essa riqueza não é ostentada, a riqueza de poder cultivar, de poder ter um contato amistoso e cuidadoso com a natureza, isso é piegas, é brega, é ultrapassado.
Quando nós vamos aprender que basta? Que chega? Que a máquina precisa aprender a desacelerar, que os lucros não podem fazer pessoas enlouquecer, que o seu visual está bom assim e se você está envelhecendo é a natureza das coisas, passa filtro solar e um sabonete para oleosidade e está bom, coma alimentos saudáveis! Quando vamos aprender que essas roupas de grife podem ter sido costuradas por crianças em algum país asiático, que essas músicas que estão "em alta" defendem valores escrotos, mas estão em inglês e ninguém tem tempo para decifrar as músicas...
O progresso é um maçarico nas nossas bundas nos obrigando a ir em frente, mas o em frente está parecendo um abismo de consumo desenfreado, apatia generalizada nas relações humanas e animais, e o colapso da saúde mental coletiva das camadas populares, junto com a destruição da nossa própria casa.
Sobre o medo do precário: o medo de não ser, de não aparecer, de não agregar valor, de ser insuficiente, todos querem falar algo neste mundo e estão todos gritando e aparecendo seminus rebolando nas redes sociais. As guerras comunicam: nós temos poder por sobre o estado de exceção. Agora você não é mais um indivíduo. E a guerra mais televisionada e captada e filmada na história e ninguém pode fazer nada. Porque se meter belicamente com os estados unidos é o que eles querem, para eles poderem usar o armamento excedente, é o país que mais investe em armamento desde sempre, eles querem que alguém vá defender a Palestina para eles poderem tacar as bombas deles lá também. Toda força ao povo palestino.
Alguns têm medo do precário, mas quem vive o precário de verdade, a falta de direitos básicos, de respeito e dignidade, tem medo de morrer.
Nenhum comentário:
Postar um comentário