Hoje pensei em me aniquilar
Se meus pais tivessem me dado amor?
Será que eu estaria aqui
Será que eu ainda estaria vivo
Será que eu, de tanto prazer, nada falaria
Ou escreveria, tamanho torpor?
Será que eu teria conhecido tanta gente
Será que eu só teria ficado como um ácaro
Esperado a ser varrido pela chuva
Hoje pensei em te aniquilar.
E a virar essa mesa de vidro sobre ti
E que os caquinhos entrem em nós
E você me trazendo para perto para o fim, ri
Até nós sermos mais vidro do que pessoa
E, quem sabe, ao sermos mais vidro
Nos enxerguemos como realmente somos
Seres grotescos berrantes comedores de animais
Com pedaços de vidro brotando de nossas caras
Sangrando
E nossos buracos boca ansiando por mais
Ansiando por algo que tape o buraco do vazio da existência finita e infinita ao mesmo tempo
Um verme suga o resto de comida que há no meu estômago
Os parasitas roubaram meus sorrisos
E não tenho mais estimativa de quando vá voltar
A alargar as parcas rugas do rosto
Para tentar convencer as multidões
Que não vivo imerso no desespero
Que não vivo em conforto ilusório
Que não entrarei dentro do meu cu
E, quem sabe, entre mesmo
E quem sabe, eu nunca ache a saída
Engula a chave e não veja mais a luz do dia
Pois o mundo lá fora é um reflexo que não irradia
E a violência que me cerca
Me instiga a me digerir
Que eu não tenho sabor
que não tenho saber
Que não tenha alma
Que pelo menos tenha vendido mas não vejo o dinheiro
Que pelo menos tenha vendido mas não vi a oferta
Que pelo menos tenha trocado a alma por paz de espírito também inexistente
Nenhum contrato foi firmado
E sem trabalhar em nenhuma formal firma
Me reafirmo
Um não-individuo
Eu nego o caráter humano em prol do bestial maquinário
Mais máquina que besta
Tudo, menos humano
Humano é a máquina mortífera
Que estraçalha as carnes dos bichos
Que emporcalha os aquíferos
Humano é a mortalha e a arapuca
A erva daninha, o vírus
O padecer.
Hoje, eu quis me aniquilar.
Talvez para mais com um vírus
Eu parecer.
Ele, sem células, a infectar
Eu, com um celular, a me suspender.
E mesmo se eu com afinco pudesse me exterminar
Que diferença no antro no cerne de algo
A carne a contaminar
Sou o restante da embarcação do navio a naufragar
Sem povo, sem credo, sem caminho a cruzar
O sentido me faz piada
A estrada se alarga e despede
O nada me aguarda e me ri
Erraram e salvei alguns afogados
É traiçoeiro mar de lixo
E cheias de bichos estão caçambas
Humano e gambá não se distinguem
Humano e câncer meros comparsas
Em ácido me afogaria
Mas já afogo pelas conversas
Pelas palavras tortas amargas
Pela desunião de quem diz estar do mesmo lado
Pelo tiro que idealizado viria certeiro
Mas de nada afetaria o quadro monetário
Funeral vazio do poeta otário
Festa de arromba quando acertam um bilionário 🎊🎊🎊🎊
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