sexta-feira, 24 de julho de 2026

Hoje pensei em me aniquilar

 Hoje pensei em me aniquilar 

Se meus pais tivessem me dado amor? 

Será que eu estaria aqui 

Será que eu ainda estaria vivo

Será que eu, de tanto prazer, nada falaria 

Ou escreveria, tamanho torpor? 

Será que eu teria conhecido tanta gente 

Será que eu só teria ficado como um ácaro

Esperado a ser varrido pela chuva

Hoje pensei em te aniquilar.

E a virar essa mesa de vidro sobre ti

E que os caquinhos entrem em nós 

E você me trazendo para perto para o fim, ri

Até nós sermos mais vidro do que pessoa

E, quem sabe, ao sermos mais vidro

Nos enxerguemos como realmente somos

Seres grotescos berrantes comedores de animais 

Com pedaços de vidro brotando de nossas caras 

Sangrando 

E nossos buracos boca ansiando por mais

Ansiando por algo que tape o buraco do vazio da existência finita e infinita ao mesmo tempo 

Um verme suga o resto de comida que há no meu estômago 

Os parasitas roubaram meus sorrisos 

E não tenho mais estimativa de quando vá voltar 

A alargar as parcas rugas do rosto

Para tentar convencer as multidões 

Que não vivo imerso no desespero 

Que não vivo em conforto ilusório 

Que não entrarei dentro do meu cu 

E, quem sabe, entre mesmo 

E quem sabe, eu nunca ache a saída 

Engula a chave e não veja mais a luz do dia 

Pois o mundo lá fora é um reflexo que não irradia 

E a violência que me cerca 

Me instiga a me digerir

Que eu não tenho sabor 

que não tenho saber 

Que não tenha alma 

Que pelo menos tenha vendido mas não vejo o dinheiro 

Que pelo menos tenha vendido mas não vi a oferta 

Que pelo menos tenha trocado a alma por paz de espírito também inexistente 

Nenhum contrato foi firmado 

E sem trabalhar em nenhuma formal firma 

Me reafirmo 

Um não-individuo 

Eu nego o caráter humano em prol do bestial maquinário 

Mais máquina que besta 

Tudo, menos humano

Humano é a máquina mortífera 

Que estraçalha as carnes dos bichos

Que emporcalha os aquíferos

Humano é a mortalha e a arapuca 

A erva daninha, o vírus

O padecer. 

Hoje, eu quis me aniquilar.

Talvez para mais com um vírus 

Eu parecer. 

Ele, sem células, a infectar 

Eu, com um celular, a me suspender.

E mesmo se eu com afinco pudesse me exterminar 

Que diferença no antro no cerne de algo 

A carne a contaminar 

Sou o restante da embarcação do navio a naufragar 

Sem povo, sem credo, sem caminho a cruzar

O sentido me faz piada 

A estrada se alarga e despede 

O nada me aguarda e me ri 

Erraram e salvei alguns afogados

É traiçoeiro mar de lixo 

E cheias de bichos estão caçambas 

Humano e gambá não se distinguem 

Humano e câncer meros comparsas 

Em ácido me afogaria 

Mas já afogo pelas conversas

Pelas palavras tortas amargas

Pela desunião de quem diz estar do mesmo lado

Pelo tiro que idealizado viria certeiro

Mas de nada afetaria o quadro monetário 

Funeral vazio do poeta otário

Festa de arromba quando acertam um bilionário 🎊🎊🎊🎊


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