Me perco em mim
Me afundo em mim
Perco meu corpo de vista
O oceano é um universo
Me perdi e talvez não queira me encontrar
Quando eu começo a me achar
Que catem minha perna e taquem no mato
Que peguem minha cabeça e joguem ela lá na estratosfera
Para eu poder ver mais de perto
A camada de ozônio
E tentar não prestar atenção em seus buracos
Eu queria que a vida fosse feita em pausas
A vida é essa corrente violenta essa montanha russa que vai só para cima
Gostaria de me congelar por um tempo e dormir o sonho das maçãs douradas
Sem agrotóxicos
Queria a tranquilidade dos herdeiros
Queria que minhas mãos não tremessem ante as decisões dos clientes contratantes carrascos
Que se eu não trabalhar a roda para de girar e o Pê fica órfão do Jóta
E eu queria mandar tudo para a pê quê pê
E não, não no sentido literal da coisa, tentando inventar o xingamento que não seja uma afronta ás prostitutas
Injustiçadas as prostitutas.
Estão no xingamento de toda uma nação
E a nação não consegue viver sem elas
Porque o fenômeno do patriarcado e da hipersexualização de tudo
Faz da relação sexual um objeto de troca
E a demanda é maior que a oferta porque são corpos que demandam uma demanda de fábrica
Não há respeito, não há pausa, apenas o cobrar
O devorar sem sentir o gosto
Sentem-se as genitalias esquecem se do rosto
Pouco importa, diante da necessidade visceral do corpo-droga descarga de frustrações
O sexo é nada mais que uma massagem terapêutica frenética buscando violenta e desesperadamente o descansar, o relaxar, diante de mil demandas
Diante da necessidade de sermos deuses da produtividade, máquinas
Incansáveis
E quando adoecemos e envelhecemos, hora do descarte
Apenas um breve momento na luz.
Hoje eu não dei nada ao meu trabalho número 1, mas dei tudo para o 2, o 3 e o 4. E era para ser um dia de folga.
Hoje, eu não consigo encerrar o dia. Porque os pensamentos se sobrecarregam e mesmo com êxitos na minha carreira tudo é um grande castelo de areia e eu temo o mar que pode chegar e apagar tudo como se não fosse nada.
A memória é fácil de se apagar. Vide minha avó com demência. Ela gritava comigo e eu ainda tenho pesadelos em que a camada mais densa da minha psique reproduz os momentos mais traumáticos em que ela me culpava por eu estar vivo.
É difícil ser um ser inquieto. Meu pai ficava a vida toda no ócio, vendo televisão. E minha avó me culpava dizendo que eu seria igual a ele. Por causa disso, me recuso a descansar e ficar confortável.
Cansa nunca poder estar confortável. Nem ter direitos trabalhistas. Estou dormindo na corda bamba há tempos.
Sorte que não tem ventado muito.
Mas o el nino vem aí!
Me perco em mim e gostaria que me ventasse junto
Me leve para outro lugar do mundo
Sim, me leve porque me sinto pesado
Os traumas te deixam mais forte, fortemente cansado
E se antes eu me sentia pre-parado
Agora só me sinto parado, mesmo
As palavras saem como expiros, a esmo
Não me fale mais, é o meu melhor amigo o abismo
De toda minha vida é figura antiga, lembra
Todo o resto é que me assombra.
Sim, me assombra
Eu sempre tive medo da perversidade humana
Nunca tive medo de tubarões ou cobras ou morcegos
Tenho medo dos pensamentos mais íntimos do subconsciente de sociopatas
Tenho medo de me deparar com cenas tão traumáticas pela internet que eu não consiga dormir
Tenho medo de lembrar que o ser humano faz o mundo ruir
Não tenho medo de mim porque eu faço o que posso
Sou uma formiga ciente do estrago
Das bombas atômicas e pela busca de petróleo nos buracos
Como as pessoas conseguem dormir?
Como as pessoas conseguem pensar que está tudo bem?
Como as pessoas conseguem ser otimistas ante a sociedade?
Será que é uma cegueira coletiva e opiacea?
Ou será que eu sou muito pessimista
Será que eu gosto do desconforto e da dor, será que este é o meu lugar de conforto, pois na infância e adolescência não conheci nada diferente?
Como as pessoas dormem ante o estupro de recém nascidos
E postamos vídeos sorrindo
E postamos fotos curtindo
O imperativo da felicidade em uma rede social que coleta nossos dados para vender mais
E se todos estão exaustos de perseguir uma felicidade
Eu estou sentado sentindo o misto de felicidade por ter conquistado coisas com algumas ajudas e muito suor
E o cansaço extremo e a responsabilidade imensa de me manter vivo e cuidar bem dos gatos e cuidar bem das plantas e cuidar bem da minha avó e de Guimbs
E dos meus amigos
Por isso que eu fiz a laqueadura.
Não tem espaço para cuidar de ninguém mais
E no meu coração não tem espaço para mais angústia
Mas a angústia cai como uma cachoeira e percorre meu corpo e além e escorre pelos meus ouvidos e exala pelos meus poros
Já dizia Dostoievski
Sejamos homens, não queiramos ser deuses
A bomba atômica compete com o dinheiro para ver quem é mais poderoso.
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