quinta-feira, 14 de maio de 2026

Minha sobrancelha tremendo

 Posso me entorpecer em você? Não?

Vai se foder então 

Que eu cave a minha cova

Não tenho mais carne 

Ou olhos ou ouvidos 

Sou o zumbi que repudia a própria carne

E os olhares não procuram nada

 ouvidos anseiam o silêncio 

mãos tateiam o escuro

Desejando não se espetar com espinhos

E as esperas, essas ásperas inimigas

Mate meu desejo de uma vez e fala que me repudia 

Tento tirar de dentro de mim as enguias que me angustiam 

Os vermes que me sugam, os caídos que me sigam

A comida, cheia de veneno, me enoja

O gesto obsceno me difere

E eu, semi digerido semi morto

Não consigo desligar essa incessante máquina

A vida é senão mácula

Manchados pela devassidão 

Mas o desejo, é um terreno arredio 

Se pede licença para assediar 

E com sede, eu cedo a beira do oasis 

Tudo é imagem 

Por trás há panos e atores mancos

Tenho sede do inexistente real, é uma moeda 

 Tenho medo do caráter verdadeiro da besta humana 

Do sádico, do masoquista, do desleal 

O delírio a beira do oasis 

Poluiram o ar e a água, mataram a fauna 

Não tem planta, nem céu, nem paisagem 

Era tudo uma miragem 

Eu quero um corpo mas quero o torpor

Dos sentidos apontando para algum lugar que não eu 

Esse eu angustiado diante da prisão 

Do fardo da existência que não cessa 

Das pálpebras tremendo e então 

Não me falta trabalho e metafísicamente me jogo no assoalho 

Não sou mais que espantalho

Quero espantar os pássaros 

Não voem perto de mim os seres humanos te aprisionam 

Vão onde não podem ser vistos 

Fama grana bonança nada me daria esperança 

Que esse mundo não é lugar de criança 

Esse mundo é lugar de monstros devoradores de almas e zumbis 

E os animais no meio tentando salvar as próprias peles 

Antes que virem bolsas de crocodilos ou casacos de madames 

O inferno é uma festa do banco master 

O céu está sujo demais para conseguirmos fazer a distinção 

Entre um lindo por do sol e uma nuvem densa de poluição 




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